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Democratização do Theatro Municipal

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A democratização do Theatro Municipal, se tornou uma das metas governamentais da cidade do Rio de Janeiro. Desde a sua fundação na segunda metade do século XIX, com iniciativa do prefeito Pereira Passos, o espaço era dedicado à elite da cidade maravilhosa. Em 1909, ano da sua inauguração, o local já abrigava cerca de 1.739 espectadores simultâneos, o que favoreceu vigorosamente para suprir a necessidade de um ambiente para a prática do teatro, arte a qual já possuía muito interesse na época. Ao todo, foram necessários quatro anos para a casa de espetáculos ser erguida, os pintores e escultores mais importantes da época foram contratados para decoração da área, como: Eliseu Visconti, Rodolfo Amoedo e os irmãos Bernardelli. A construção foi inspirada pela Ópera de Paris e é vista em todo o mundo como uma das mais belas da América do Sul. Atualmente, esse espaço com ‘’raízes da elite’’, busca um processo de equidade social entre o público que o frequenta.  

Com mais de 100 anos de existência e inúmeras reformas, o Theatro Municipal ainda carrega e preserva características clássicas da sua época. O ambiente é um grande abrigo cultural e de movimentos sociais, sendo considerado tanto nacionalmente, como internacionalmente, um espaço tradicionalíssimo. O monumento vive um momento de reconstrução social, afinal, por se tratar de um local muito antigo, o público que o frequenta mudou. Para isso, deve ser feita uma inclusão social, visando tornar a casa de espetáculos mais acessível para todos. Historicamente, o local era visto como um lugar de alta classe e que não deveria ser frequentado por pessoas de classes sociais mais baixas. Com o passar do tempo e com o avanço da democratização das áreas de entretenimento, é desejada uma acessibilidade para todo o conjunto da sociedade. 

Laura Ghelman, responsável pelo Centro de Documentação do Theatro Municipal, acredita que não adianta somente diminuir o preço, mas deve haver incentivos para que se molde uma nova cultura, uma muito mais inclusiva. “No entanto, baratear os ingressos por si só não é o suficiente, já que não há um sentimento de pertencimento dessas pessoas com Theatro. Por isso, acreditamos que a democratização de acesso passa também pela educação, conhecer, entender e oferecer acesso para democratizar.”, afirmou a funcionária. Atualmente, além do dinheiro público, o ambiente fatura com visitas turísticas, que, apesar da limitação do número de pessoas, devido à pandemia, mantém a movimentação do lugar economicamente e socialmente. Somente 50 pessoas podem visitá-lo por dia, e o estabelecimento oferece visitas guiadas em inglês e espanhol e certamente em português. Os valores dos ingressos variam entre 20 (inteira) e 10 (meia) reais.

O ex-diretor, Ciro Pereira, comenta que o ambiente é referência de qualidade. ‘’A grande característica, é se primar pelo que faz, seja na dança, seja no canto, seja no que for, ele é sempre uma referência.’’, diz Ciro. Além disso, o Theatro está localizado no centro, onde estão presentes os grandes monumentos culturais, como a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes e a Câmara dos Vereadores. Centenas de artistas já passaram pelo Theatro, do Ballet até as peças teatrais. A diversidade de talentos que se apresentaram por lá é gigantesca. Aniela Jordan, ex-Coordenadora de Palco e Diretora Operacional, afirma que a casa de espetáculos é a mais importante do país, descrevendo-a como “fonte das grandes artes”. Ela também destaca a necessidade do cuidado do local, para garantir sua preservação, visto que o monumento é um grande orgulho não só para o cidadão carioca, mas como para todo o povo brasileiro.

Recentemente, a gestão do teatro mudou, e agora é presidida pela historiadora Clara Paulino, especialista em Administração Pública e mestranda em Museologia e Patrimônio. A nova gestora, em entrevista dada ao Antena MEC, garante que a prioridade seria traçar um plano de ação que tornasse o ambiente mais democrático para toda a população carioca e seus visitantes. “E agora o desafio é a Fundação Theatro Municipal, onde eu tenho o compromisso de fazer o melhor para a retomada das atividades da instituição e para fomentar a democratização de acesso.” Disse Clara para a rádio. Em entrevista ao Diálogo Cultural, a historiadora comentou um pouco mais objetivamente como pretendia fazer do Theatro Municipal mais amplo culturalmente. “Temos que retomar os ingressos a preços populares, investir em transmissão por streaming e ampliar o acesso através de visitações, oficinas e outras formas de interação com o público.” Reforçou, a gestora do estabelecimento. 

O momento pelo qual o Theatro Municipal passa é delicado, assim como o de diversas casas de show durante o período da pandemia da COVID-19. Apesar de não estar recebendo eventos, os problemas vêm desde antes da chegada do vírus. Com mudanças no governo estadual mais recorrentes do que o comum, graças à crise política que o estado viveu nos últimos anos, a direção do espaço perdeu o rumo. Aniela, a qual trabalhou por mais de 20 anos no local, passou por vários governos e afirma que há diferenças claras entre eles. “O Theatro Municipal atravessa um período de grandes dificuldades. Um equipamento desse porte só se sustenta com investimento do governo. Assim é em todos os lugares do mundo. E, para tal, precisa de um governo com vontade política. Não adianta ter um excelente gestor se ele não tem respaldo de “cima”. Eu passei por 7 governos ao longo desse tempo e senti bem as diferenças.”, disse a ex-funcionária do Theatro. 

Em um momento tão difícil que vivemos, o que salva muitos é a arte, e principalmente em um lugar com enorme desigualdade como o Rio de Janeiro, onde a maioria acaba não tendo acesso a ela. Tornar ambientes, como o Theatro Municipal, mais acessíveis para que todas as pessoas possam consumir sua cultura deveria ser prioridade de todos os governos. No entanto, como Aniela recorda, os problemas políticos da cidade acabaram tendo impacto na gerência da casa de espetáculos. Além disso, tem de haver políticas que preservem esses lugares, para que sejam mais atrativos, mais conservados, e não sucateados como agora, em alguns casos. Ainda sim, o Theatro Municipal é um dos grandes pontos turísticos cariocas e um lugar muito respeitado em todo o continente.

Reportagem: João Manoel Morais e Theo Carvalho

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