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A beleza da Margem

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A poesia é, historicamente, associada ao cultismo, aos grandes poetas clássicos e aos movimentos literários. No senso comum, o estilo literário é visto somente como textos antigos sobre a beleza das paisagens e rimas ricas, como escrevem os parnasianos; ou da tristeza e a rapidez da vida, como os românticos. Fora desses circuitos tradicionais, a poesia marginal é compreendida como a produção literária feita por  pessoas e lugares que tiveram e têm pouco espaço dentro do meio.

Hoje, 20 de outubro, é celebrado o Dia do Poeta. A data foi escolhida por conta da criação do Movimento Poético Nacional, em 1976, fundado com o objetivo de incentivar a leitura, escrita e publicação de poesias brasileiras. Mesmo não sendo nacionalmente oficializado, a celebração é dedicada àqueles que conseguem expressar sua arte  em forma de palavras, por meio da sensibilidade com o mundo e sua criatividade.

Inicialmente, com a promulgação do Ato Institucional nº 5 pela Ditadura Militar, em 1968, iniciou-se um dos períodos mais repressivos do regime autoritário que se instalou no Brasil até o final da década de 1980. A censura limitou a produção artística e criou um momento de aparente “vazio cultural”. Nesse contexto, a antologia “26 Poetas Hoje“, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, também em 1976, é um dos primeiros passos dados no sentido de delimitar o que posteriormente se chamou de “geração mimeógrafo”, uma das primeiras fases da poesia marginal. Essa reunião de autores trazia nomes geralmente excluídos dos circuitos literários comerciais.

Se no início a poesia marginal se relacionava com uma marginalização política dos autores que se opunham à Ditadura, hoje, ela tem origem nas margens socioeconômicas da sociedade, de pessoas que moram nos morros e nas periferias do Brasil e resolvem se expressar por meio da arte e da escrita. Braion Souza, poeta e músico, conta que se trata da rima gritada, um misto de raiva, amor e tristeza: “É a forma de se expressar para as pessoas que nunca tiveram voz”.

A sensação de ser representado pela poesia foi o que despertou o artista dentro de Júnior MC. O poeta conta que esse lado surgiu quando teve o primeiro contato com uma Roda Cultural. Ao ver pessoas rimando e mostrando seus trabalhos, ele se identificou com muitas poesias e vivências de outros artistas. O MC ainda completa a sua fala destacando a importância da expressão artística. “Por mais que as palavras mudem de autor para autor, o peso da mensagem para quem se identifica é realmente sentido”.

Um ponto importante entre esses novos poetas é o Rap. Alguns deles começaram a se entender como artistas depois do contato com a música, e que esta foi, de certa forma, uma porta de entrada na poesia. A escritora Carol Dall Rafa conta que, quando iniciou no gênero musical, começou a escrever músicas sobre aquilo que vivia. ”Depois entendi que a música era poema e vice-versa, não se sabe onde um começa e o outro termina”.

No dia do poeta, trazer essa nova visão da poesia é falar da periferia como centro de produção cultural e artística importante para o Brasil. Braion acredita que as pessoas só ‘fingem’ que a arte favelada não produz coisas relevantes porque querem manter a literatura, as galerias de arte e as mídias ‘na mão da burguesia’ e complementa:

“Tá ‘geral’ de saco cheio de ler e ouvir poesia sobre a Helena do Leblon. Nós ‘quer’ ouvir e ler sobre o pôr do sol da laje, a poesia que os bailes produzem, sobre o que os grafites dos becos falam, sobre a verdade, sobre nós!”

A poesia marginal cria o novo, auxilia a redesenhar um cenário, é uma ferramenta de expressão sem regras e surge para quem queira expor todos seus sentimentos. A mensagem que fica entre os artistas para quem quer escrever é:  “Comece escrevendo para você. Apenas comece, que não tenha medo, timidez ou vergonha de expor quem realmente essa pessoa quer ser. Larga tudo que você está fazendo agora, pega o caderno, o bloco de notas e começa a escrever”, completam Júnior MC, Carol Dall Rafa e Braion.

Reportagem:  Fabiano Cruz | Felipe Rinaldi | Guilherme Dias | Gabriel Mota | Henrique Fontes | Isys Bueno | João Pedro Abdo

Revisão: Brenda Barros | Felipe Roza | Letícia De Lucas 

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